Quando eu falo que trabalho com ensino-aprendizagem muitas vezes me perguntam se eu posso ensinar como fazer um plano de aula, ou planejamento de aula. Eu entendo que professores têm esse foco na aula, porque afinal, a aula é o cenário onde tudo acontece, e onde o(a) professor(a) precisa saber o que fazer. Dito isso, essa pergunta sobre um plano de aula nunca deixa de me surpreender, justamente pela omissão do planejamento didático como um todo.
Conhecendo professores, eu diria que muitas vezes o suposto planejamento didático “está dentro da cabeça” de uma forma meio intuitiva, ou talvez esboçado rapidamente ou até existente em algum documento institucional. O fato é que “a aula” costuma ser o centro do “planejamento”, muitas vezes guiado pela vontade de implementar aquele projeto legal, ou uma atividade específica, como leitura em grupo, por exemplo. Eu também entendo que muitos professores se tornaram professores porque queriam interagir com os estudantes e ser uma figura de impacto nesse cenário que é a aula.
Mas o conhecimento sobre o ensino-aprendizagem se profundou, o ensino-aprendizagem mudou, e hoje em dia existe uma demanda maior por resultados efetivos de aprendizagem baseados em habilidades e competências, não mais em exposição de conteúdo. O cenário educacional atual exige que os professores pensem o planejamento didático de forma intencional e estratégica. Não basta ter um documento institucional que poucos sabem como traduzir para a prática em sala de aula. Também não adianta simplesmente copiar e colar diretrizes curriculares, como a BNCC, sem antes compreendê-las profundamente e adaptá-las ao contexto real da aprendizagem.
Planejar com propósito significa transformar diretrizes em ações concretas que entreguem valor para os estudantes, promovendo uma aprendizagem significativa e duradoura. O “plano de aula” precisa estar integrado ao planejamento de uma “sequência de aulas” que guia o estudante em um processo coerente de aprendizagem em direção à um objetivo claro – e quando eu falo coerente eu quero dizer principalmente do ponto de vista do estudante.
Vamos então entender melhor a função do plano de aula dentro de um planejamento maior, e como fazer um plano de aula que faz sentido e promove mais aprendizagem.
PLANO DE AULA é como um barco ancorado em uma ilha

No plano de aula podemos “pendurar” uma atividade de aprendizagem colaborativa, uma gamificação, rotação por estações, e por aí vai. Mas para quê e porquê?
Vamos supor que um “plano de aula” envolve uma leitura em grupo, como uma tentativa de aprofundar a compreensão ou romper barreiras de quem não costuma ler ou prestar atenção. Essa atividade pode tomar toda a aula, se houver apenas 30 minutos efetivos de aula e se o texto for complexo. E lá se foi um “plano de aula”. Na próxima aula digamos que o(a) professor segue com uma aula expositiva sobre o próximo conteúdo, podendo ser até uma aula dialogada. E lá se vai mais um “plano de aula”. Em outra aula o(a) professor(a) pode até planejar uma rotação por estações, onde os estudantes assistem vídeos, fazem testes e exercícios. Mais um “plano de aula”. No final da unidade de estudos, qual foi o papel de cada plano de aula no resultado da aprendizagem?
Muitas vezes, os planos de aula são centrados no conteúdo e na tentativa de encaixar estratégias para “engajar a atenção” dos estudantes – ou não. A leitura em grupo envolve o conteúdo de um texto, a aula dialogada envolve conteúdo expositivo, e a rotação por estações envolve atividades voltadas para o conteúdo. O foco no conteúdo é a forma “tradicional” de planejar aulas. O que foi acrescentado, nos dias de hoje, são as chamadas “metodologias ativas”. Mas qual é o problema dessa abordagem?
Vale ressaltar que “metodologias ativas” são ótimas, quando utilizadas como parte de um planejamento mais amplo. Já a abordagem mais “intuitiva”, que envolve pensar um “plano de aula” como uma sequência de estratégias em torno de conteúdo, não funciona para gerar maior impacto na aprendizagem. Se o(a) professor(a) não pensou a sequência de aulas de forma estratégica, a tendência dos estudantes é enxergar cada aula e cada conteúdo como silos de informação que podem ter conexões, mas estas conexões não são coerentes o suficiente para que a aprendizagem seja aprofundada e duradoura.
Um plano de aula que escolhe conteúdo para conectar a uma estratégia de engajamento é como um barco em uma ilha: isolado no cérebro dos estudantes. Esta abordagem para “planos de aula” acaba jogando atividades para lá e para cá, sem ancorá-las ou colocá-las em uma trajetória estratégica. Para evitar que isso aconteça, é preciso parar de pensar o “plano de aula” como unidades isoladas – ou relativamente isoladas. O caminho para um planejamento didático estratégico, que tem maior impacto no estudante, envolve um destino final “claro” e uma “jornada” visível e coerente do ponto de vista do estudante.
Portanto, vamos deixar a ideia de “plano de aula” de lado para começarmos a pensar em planejamento de uma “sequência de aulas em direção a um objetivo”. Vamos ver como isso funciona, a seguir.
PLANO DE AULA precisa de destino final claro

Cada “plano de aula” deve ter um papel significativo na direção de um objetivo final de aprendizagem. O nosso problema, é que temos dificuldade em definir um “objetivo claro”. Muitas vezes o objetivo é o nome de um tópico: “estamos aprendendo sobre conservação de energia”, ou estamos aprendendo sobre “alimentos saudáveis”. Mas aprendendo a fazer o quê com a conservação de energia? Estamos aprendendo a fazer o quê com os alimentos saudáveis? Esta é uma pergunta fundamental quando nossos estudantes precisam desenvolver habilidades e competências, e não apenas compreender conteúdo como no ensino tradicional. Mesmo para que já tem à disposição uma longa lista de habilidades como no caso da Base Nacional Curricular para o ensino básico, é necessário refletir sobre como este tipo de pergunta impacta o planejamento e a construção de “planos de aula” como uma sequência didática coerente.
Para nos ajudar nesta tarefa, temos a Taxonomia de Bloom. Esta taxonomia NÃO É uma metodologia, mas sim uma ferramenta para nossa reflexão sobre o verdadeiro objetivo da aprendizagem. Pensar nos níveis de desafio cognitivo da Taxonomia de Bloom nos ajuda a localizar o objetivo final de aprendizagem e sua posição em uma “escada de desafios”. A compreensão correta do significado de cada nível de desafio é a chave para desenhar experiências de aprendizagem que desenvolvem habilidades com precisão e impacto! Veja no final deste artigo as definições de cada nível de desafio da Taxonomia, além dos verbos de ação correspondentes para definir habilidades.
Vamos explorar o exemplo do tópico “alimentos saudáveis”, porque pode ser mais simples de entender, e a partir deste tópico utilizar a Taxonomia de Bloom para decidir qual será o nível de desafio do objetivo final de aprendizagem. Para isso, vamos além do tópico, pensando em uma habilidade genérica útil, como por exemplo ”fazer sucos saudáveis”:
- Opção 1: Se estabelecemos que os estudantes devem ser capazes de “explicar o que torna um suco saudável”, estamos trabalhando em um dos níveis iniciais de desafio cognitivo: a compreensão. Neste nível os estudante aprendem quais são os possíveis ingredientes para um suco saudável e porque fazem bem para o organismo. Para o estudante, essa habilidade serve para ter consciência sobre o que é saudável e talvez fazer escolhas pessoais.
- Opção 2: Para subir um degrau na escada de desafios e atingir o nível de aplicação, precisamos propor atividades que exijam a utilização do conhecimento em contextos práticos. Para isso, podemos procurar inspiração na lista de verbos de ação da Taxonomia de Bloom (final deste artigo), estabelecendo que os estudantes devem ser capazes de “experimentardiversas combinações de ingredientes para fazer sucos saudáveis”. Os estudantes podem aprender a escolher ingredientes, utilizar facas para cortar os ingredientes, escolher o melhor liquidificador ou blender, e até escolher formas de guardar o suco. Com essas habilidades práticas os estudantes já podem fazer, armazenar e até vender sucos saudáveis.
- Opção 3: Mas e se nossos estudantes tiverem potencial para subir mais um degrau da escada de desafios? Olhando a Taxonomia de Bloom no nível de análise, e seus verbos de ação correspondentes, estabelecemos que os estudantes devem ser capazes de “inspecionar a informação nutricional de sucos saudáveis, montando tabelas nutricionais”. Com esse nível de habilidade, os estudantes podem fazer escolhas embasadas para vender seus sucos com um carimbo de qualidade nutricional. Os estudantes podem até servir de consultores para outros fabricantes de sucos.
E agora, qual dessas opções será a nossa escolha para o objetivo final de aprendizagem? A escolha depende primordialmente do potencial dos estudantes e da proposta/filosofia de ensino da instituição ou empresa. Tudo é uma questão de priorização. Se esse parece ser um tópico importante para aprender conceitos fundamentais e levar aprendizado para a vida, então eu diria que é prioritário e dedicaria um pouco mais de tempo para aprofundar esta aprendizagem – e para isso devemos priorizar o conteúdo que é essencial. Minha escolha pessoal é a opção 3, no nível de análise.
A escolha do objetivo final de aprendizagem, para cada nível de desafio diferente, implica em uma diferença fundamental no planejamento de uma “sequência de aulas”. Quando utilizamos a Taxonomia de Bloom para definir habilidades, deixamos de focar o planejamento de aulas em conteúdo e atividades para engajamento da atenção. Passamos então a pensar no que os estudantes precisam aprender e saber fazer, para que consigam atingir este objetivo final. Os “planos de aula” ficam então amarrados nesta jornada até o objetivo. E vou repetir – isso é diferente de pensar aulas como uma lista de conteúdo e atividades.
A seguir você vai começar a entender o que significa organizar esta “sequência de aulas”, e como cada “plano de aula” deve ser pensado como parte da jornada.
NOTA: Eu acho essa abordagem utilizando a Taxonomia de Bloom um alívio, porque deixamos de “adivinhar” como fazer um “plano de aula”, ou como organizar o conteúdo em uma apresentação, ou como dividir o conteúdo em diversas aulas. E o nosso discurso de educador(a) fica mais coerente para nós mesmos e para os estudantes.
PLANO DE AULA deve ser parte de uma jornada

A Taxonomia de Bloom é uma ferramenta que mostra a aprendizagem como uma progressão em uma escada de desafios cognitivos. Sabendo qual é o nível de desafio final, conseguimos pensar sobre os “planos de aula” para que os estudantes consigam chegar lá, ou seja, consigam ter sucesso no objetivo final – e esse objetivo é sempre uma habilidade, ou seja, a capacidade de aplicar o conhecimento de maneira útil e significativa.
A idea é planejar as aulas como oportunidades para que o estudante possa adquirir as habilidades auxiliares que compõem a habilidade final. Cada degrau na escada de desafios pode ter uma ou mais habilidades auxiliares. Assim, se o objetivo final estiver no nível de análise, os estudantes terão que desenvolver habilidades no nível de memorização, compreensão e aplicação, antes de estarem prontos para esta análise.
Veja que planejar aulas como oportunidades de desenvolvimento de pequenas habilidades é muito diferente de planejar aulas para transmitir conteúdo, mesmo sendo através de atividades que engajam a atenção. Para realmente desenvolver uma habilidade, é necessário mais foco e maior aprofundamento em um conteúdo prioritário, junto com a oportunidade para tornar a aprendizagem “visível” e assim receber feedback. Essa abordagem contrasta com a pressa de cobrir uma grande quantidade de conteúdo, priorizando, em vez disso, a construção gradual e intencional do aprendizado.
Vamos voltar ao exemplo dos sucos saudáveis e o objetivo de aprendizagem final: “inspecionar a informação nutricional de sucos saudáveis, montando tabelas nutricionais”. Para planejar as aulas, é preciso primeiro pensar em uma “estrutura de aprendizagem”, representada pela escada de desafios. Assim podemos nos fazer perguntas sobre cada nível de desafio, contando uma pequena história de como será a trajetória de aprendizagem:
MEMORIZAÇÃO: O que os estudantes precisam de fato memorizarpara conseguir “inspecionar a informação nutricional de sucos saudáveis, montando tabelas nutricionais”? Nem tudo precisa ser memorizado. Então precisamos nos perguntar o que seria interessante ter “na ponta da língua”, para tornar mais eficiente o trabalho de inspecionar ingredientes de sucos saudáveis. Talvez seja bom que os estudantes tenham em mente o formato de uma tabela nutricional, a lista dos principais nutrientes para a saúde, como tipos de vitaminas, minerais, proteicos, gorduras, etc.
COMPREENSÃO: O que os estudantes precisam compreender com mais profundidade para “inspecionar a informação nutricional de sucos saudáveis, montando tabelas nutricionais”? A memorização já faz parte da compreensão, mas não é tudo. Uma compreensão mais profunda exige a exploração de exemplos variados, a conexão com diferentes contexto, etc. Para isso, os estudantes precisam não apenas adquirir conhecimento, mas também realizar atividades que lhes permitam manipular os conceitos fundamentais. No caso dos sucos saudáveis, conceitos fundamentais envolvem o papel dos diferentes tipos de nutrientes no organismo, por exemplo.
APLICAÇÃO: O que os estudantes precisam aplicar na prática antes de serem capazes de “inspecionar a informação nutricional de sucos saudáveis, montando tabelas nutricionais”? Mas antes mesmo de inspecionar um suco saudável em mais detalhes, o estudante precisa saber fazer escolhas mais amplas sobre quais ingredientes podem fazer um suco saboroso e também saudável. Atividades de aplicação prática podem envolver a escolha de ingredientes saudáveis em diversas combinações, utilizando o conhecimento sobre o que é saudável e justificando estas escolhas. A prática também pode envolver fazer os sucos e experimentar para ver quais combinações podem ser mais agradáveis.
ANÁLISE: O que os estudantes precisam saber fazer para “inspecionar a informação nutricional de sucos saudáveis, montando tabelas nutricionais”? A análise da informação nutricional de um suco exige que os estudantes identifiquem seus ingredientes, quantifiquem cada um e compreendam os nutrientes presentes. Nessa etapa, é fundamental que sejam mais sistemáticos, avaliando cada suco de forma criteriosa e analisando como a combinação de ingredientes influencia diferentes aspectos da saúde. Eles devem aprender a categorizar os sucos com base em seus benefícios nutricionais, agrupando-os de acordo com sua função—como sucos energéticos, ricos em vitaminas ou de baixo índice glicêmico—, o que representa uma interpretação mais aprofundada da tabela nutricional.
Com essa pequena “história” que contamos através de cada nível de desafio para chegar no objetivo final, podemos começar a listar as aulas e as atividades necessárias para uma jornada de aprendizagem eficaz. Vejam que o conteúdo deve ser aprofundado e fica subordinado às habilidades. Não ensinamos “tudo”, mas ensinamos conteúdo prioritário para desenvolver a habilidade esperada. O restante do conteúdo pode ser mencionado, discutido brevemente, indicado em uma lista de referências, mas não aprofundado.
Dessa forma, cada plano de aula estruturado dessa maneira tem um papel claro no desenvolvimento da habilidade. Quando planejamos aulas de forma isolada, corremos o risco de não criar uma jornada coerente para o cérebro dos estudantes. A Taxonomia de Bloom nos ajuda a enxergar cada plano de aula como uma peça fundamental desse percurso, garantindo uma progressão em níveis crescentes de desafio.
A Taxonomia de Bloom

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Como Escolher Conteúdo para Engajar o Cérebro em Aprendizagem Duradoura
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Taxonomia de Bloom no Desenvolvimento de Habilidades