A “metodologia ativa” não é uma solução completa

A implementação de uma metodologia ativa não gera engajamento e autonomia de forma automática nos estudantes. Isso acontece porque as chamadas “metodologias” ativas não são uma “metodologia” completa: são apenas estratégias que fazem parte de uma abordagem pedagógica voltada para o estudante no centro do processo de aprendizagem.
O movimento para planejar aulas em que os estudantes sejam ativos é muito positivo. Mas existe um grande número de pesquisas educacionais que nos mostram quais devem ser os PILARES de um ensino voltado para o estudante, e muitas vezes deixamos esse embasamento de lado.
Aqui no Brasil gostamos de filosofar, o que é bom, mas em altas doses essa abordagem do ensino falha em apontar soluções específicas e eficazes. Falamos em grandes nomes da educação (Piaget, Vygotsky, Dewey, etc), mas não nos preocupamos com os detalhes práticos. Falamos em “metodologias ativas” de forma um pouco genérica, normalmente sem muita preocupação com a engrenagem que realmente faz o cérebro do estudante se engajar e se transformar.
Neste artigo eu aponto estes pilares do ensino que são fundamentais e devem SEMPRE nortear uma aprendizagem ATIVA, porque são pilares baseados em pesquisas, boas práticas e neurociência: isso mesmo, práticas concretas que fazem realmente diferença.
O estudante se torna engajado e autônomo quando sabe onde está no processo de aprendizagem, e porquê…

Essa ideia simples e poderosa resume TODOS os PILARES de um ensino voltado para o estudante engajado e autônomo: “saber ONDE ESTÁ no seu processo de aprendizagem, e PORQUÊ”.
A grande revolução de uma metodologia ativa eficaz é a capacidade do estudante tomar as rédeas da sua própria aprendizagem, de forma consciente. E para isso o estudante precisa ter CLAREZA sobre qual é o OBJETIVO da aprendizagem e também CLAREZA sobre os PASSOS no processo de aprender para atingir o sucesso no objetivo.
O formato de uma atividade baseada em “metodologias ativas” contribui, mas não garante este engajamento e autonomia. O que garante engajamento e autonomia é a CLAREZA que o(a) professor(a) pode oferecer na direção de um objetivo de aprendizagem SIGNIFICATIVO, capaz de sustentar uma aprendizagem aprofundada e duradoura.
A atividade “mão na massa” torna-se, então, um meio, não um fim: uma oportunidade para exercitar engajamento e autonomia guiados por clareza de objetivo e de percurso.
O cérebro do estudante precisa de clareza para ser capaz de manipular conteúdos de forma ativa e gerar significado pessoal. Sem isso, a “atividade mão na massa” não produz transformação na memória de longo prazo (= aprendizagem).
O cérebro do estudante também precisa de clareza para regular o próprio processo de aprendizagem na direção de um objetivo. Sem essa direção, o que vemos são estudantes ocupados, mas não cognitivamente engajados; participativos, mas sem profundidade cognitiva.
Quando o(a) professor(a) tem clareza sobre o que é essencial aprender, pode apostar que o objetivo de aprendizagem se torna não apenas claro mas também mais significativo. Esse tipo de clareza desfaz a confusão gerada pelo excesso de tópicos e organiza o conteúdo em torno de uma habilidade relevante para a vida e para o trabalho.
O desafio de planejar aulas que engajam e geram aprendizagem

No ensino tradicional, planejamento de aulas envolvia principalmente quebrar o assunto e subtópicos e ir seguindo nas explicações, com exercícios feitos principalmente em casa.
Mas nos dias de hoje, quando se espera que o estudante seja o centro da aprendizagem, planejamento de aulas pode ser desafiador SE não houver conhecimento sobre COMO deve ser feito para gerar aprendizagem ativa e efetiva.
A tentação de aplicar uma “metodologia ativa” como uma solução completa é grande. Parece que basta fazer uma atividade “ativa” e os estudantes estarão engajados e serão autônomos. Além dessa tentação, temos o excesso de conteúdo e a resistência em priorizar, já que tudo parece importante para a aprendizagem.
Nessa mistura, os objetivos de aprendizagem podem ficar muito difusos, confundindo descrição da atividade com objetivo da aprendizagem. O estudante sabe o que deve fazer na atividade, mas não entende qual é realmente o objetivo de aprendizagem final. Parece que existem muitos pequenos objetivos e o estudante se vê em uma sequência de tarefas, não em um processo de aprendizagem.
O que fazer então? Como planejar aulas de forma intencional para implementar as “metodologias” ativas de forma a gerar engajamento, autonomia e aprendizagem eficaz?
Antes de tudo, precisamos de clareza e significado

Antes de planejar uma atividade, ou aulas baseadas em metodologias ativas, é preciso estabelecer os PILARES do ensino eficaz, baseados em pesquisas: clareza e intencionalidade.
Primeiro é preciso rever o que acreditamos ser um objetivo de aprendizagem, ou até mesmo um objetivo de aprendizagem claro. Não importa se o(a) professor(a) é claro(a) nas suas explicações. É preciso “extrair a essência” do que se está tentando ensinar e a utilidade desta aprendizagem, para traduzir em linguagem acessível aos estudantes na forma de um objetivo de aprendizagem a ser alcançado.
O cérebro do estudante precisa de um objetivo focado e claro como guia para conectar explicações e atividades ao seu conhecimento prévio. E para isso, o objetivo precisa ser comunicado logo no início e revisitado ao longo de todo o processo de aprendizagem.
É FUNDAMENTAL definir um objetivo de aprendizagem focado, dentro de um contexto específico, e baseado em um verbo de ação “autêntico”. Um verbo de ação autêntico define uma atividade de aprendizagem que tem significado para o estudante: ou seja, uma atividade que o estudante entende que pode ser útil de alguma forma para a sua vida ou seu trabalho.
Essa é a única forma de oferecer ao cérebro do estudante um guia, uma direção, um organizador para tudo o que vai acontecer nas aulas. Essa é a única forma de garantir aprendizagem centrada no estudante, porque o objetivo foi desenhado para ajudar o estudante.
Com um objetivo claro, o propósito de uma metodologia ativa fica também mais claro para os estudantes. Com um objetivo claro, todo o planejamento de aulas fica mais claro para o(a) professor(a).
Veja um exemplo:
OBJETIVO DE APRENDIZAGEM que NÃO é claro (e não é significativo): Vamos aprender sobre alimentação saudável, pirâmide de alimentos, macronutrientes, micronutrientes, alimentos construtores, alimentos energéticos, alimentos reguladores, para saber montar uma refeição saudável.
Observação: mesmo que os estudantes planejem uma refeição saudável no final da unidade de estudos acima, existe uma grande chance de que este “planejamento” seja uma reprodução de um exemplo que já viram ou uma reprodução da pirâmide de alimentos, sem muita reflexão (ou seja, sem aprendizagem ativa).
OBJETIVO DE APRENDIZAGEM CLARO e SIGNIFICATIVO (baseado em um verbo de ação autêntico): O estudante deve ser capaz de analisar suas próprias refeições em termos de nutrientes, excessos e deficiências, a fim de fazer ajustes mais saudáveis.
Neste segundo exemplo, todo o conteúdo sobre nutrientes e alimentos é mobilizado de forma ativa para analisar as próprias refeições, promovendo reflexão e tomada de decisão sobre como modificar a alimentação. Esse objetivo produz um impacto autêntico e duradouro na vida do estudante.
E antes de escolher a metodologia ativa, precisamos de intencionalidade

Depois que temos clareza sobre um objetivo de aprendizagem que é significativo e autêntico par ao estudante, podemos partir para o planejamento de aulas e a escolha de uma metodologia ativa. Mas isso precisa ser feito com muita intencionalidade.
A forma mais eficaz de atingir intencionalidade é pensar na sequência de aulas como uma escada de desafios crescentes utilizando verbos da Taxonomia de Bloom. Da mesma forma que escolhemos o verbo de ação para o objetivo de aprendizagem final, escolhemos verbos de ação para cada um dos níveis de Bloom.
Se o objetivo é que os estudantes analisem suas próprias refeições, é preciso explicitar quais aprendizagens eles devem demonstrar em cada nível de desafio da Taxonomia de Bloom.
- O que o estudante precisa memorizar para realizar essa análise com fluidez?
- O que precisa compreender para interpretar suas refeições em termos de nutrientes, excessos e deficiências?
- O que precisa aplicar para praticar, aprofundar o conhecimento e realizar uma análise embasada?
Essas perguntas geram intencionalidade pedagógica, porque organizam as experiências de aprendizagem de forma lógica e progressiva, sustentando o desenvolvimento cognitivo rumo ao objetivo final.
Cada pergunta gera uma atividade de aprendizagem ativa baseada em um verbo de ação da Taxonomia de Bloom. E as aulas expositivas são planejadas de forma a apoiar estas atividades.

Somente depois disso é que faz sentido perguntar qual metodologia ativa melhor se alinha a essa intencionalidade pedagógica: aprendizagem por projetos, rotação por estações, sala de aula invertida, entre outras.
Quando a metodologia se encaixa em uma intenção pedagógica clara, a aprendizagem passa a ser coerente, eficaz e orientada pelo objetivo que foi definido e pelo percurso coerente para atingir este objetivo; e não pelo formato da atividade.
Se o objetivo é que o estudante seja capaz de “e analisar suas próprias refeições em termos de nutrientes, excessos e deficiências, a fim de fazer ajustes mais saudáveis”, é possível utilizar gamificação, aprendizagem por projetos ou problema, pesquisa, rotação por estações? Qual estratégia vai permitir que o estudante desenvolva a análise, integrando conteúdos de forma ativa?
As metodologias ativas criam oportunidades para que os estudantes aprendam de forma ativa, manipulando o conhecimento. Mas esse tipo de aprendizagem só se concretiza quando há um objetivo claro e significativo, capaz de sustentar a autorregulação, e quando a sequência de aulas e atividades constrói um percurso compreensível e coerente para o estudante.
Se você quiser saber mais sobre planejamento intencional de aulas …
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