Entramos na era das competências e habilidades mas aqui no Brasil, arrisco dizer, ainda não entendemos e não aprendemos muito bem como transformar o ensino para de fato desenvolvê-las.
O ponto cego dessa enrascada me parece ser a falta de clareza, que sempre existiu no ensino tradicional e que continua existindo hoje em dia.
A clareza da qual eu falo não é uma clareza do senso comum. É uma clareza que permite ao professor(a) planejar e ensinar com foco preciso, para produzir a aprendizagem que se espera alcançar. Este é um cenário onde sabemos exatamente qual é o resultado de aprendizagem que desejamos, e somos capazes de mensurar este resultado com maior segurança e eficácia.
Por isso, não adianta desejar um determinado resultado de aprendizagem e avaliar outra coisa. Quando as avaliações não medem aquilo que se pretende desenvolver, perde-se a possibilidade de compreender o real impacto do ensino. Um resultado de aprendizagem claramente definido precisa ser visível e mensurável, pois é isso que sustenta não apenas um planejamento eficaz, mas também o ajuste contínuo do ensino com base em evidências.
Neste artigo vamos entender as implicações da falta de clareza para a aprendizagem dos estudantes, dentro do cenário atual de transformação do ensino de conteúdo em ensino de habilidades e competências. Por fim vamos entender qual é o segredo para definir com clareza o que é essencial ensinar e aprender: um fator ainda pouco compreendido para alcançar uma aprendizagem duradoura e significativa.
O ensino sempre padeceu da falta de clareza sobre o que realmente importa ensinar

Porque clareza importa no ensino e porque a clareza da qual eu falo não é a do senso comum?
Hoje em dia temos um conhecimento muito maior sobre neurociência da aprendizagem do que no passado. Por isso sabemos que o cérebro de um(a) professor(a) especialista é feito de conexões complexas entre os conteúdos de sua área de estudos (pelo menos muito mais do que os estudantes). Para este(a) professor(a), as conexões são óbvias e muitas vezes essa visão do todo induz a desconexões no cérebro dos estudantes. E porque isso acontece?
O(a) especialista no assunto tende a esquecer como aprendeu e também tende a se expressar “pulando passos”, ou pulando conexões que parecem simples mas que são complexas e levam tempo para se solidificar no cérebro dos estudantes.
O resultado dessa disparidade mental é a falta de clareza sobre qual é o objetivo central da aprendizagem, e qual é exatamente a “cara” do resultado de aprendizagem esperado. Daí as típicas perguntas de estudantes: “O que cai na prova”?.
Os estudantes devem saber, desde o início, qual é o objetivo fundamental da aprendizagem, expresso de forma clara e focada: não como uma lista de tópicos e subtópicos, mas como uma ideia central a ser explorada.
Um objetivo de aprendizagem claramente definido desde o início orienta o cérebro dos estudantes a atribuir sentido aos conteúdos que serão trabalhados. Ele funciona como um organizador prévio, oferecendo uma estrutura que favorece o estabelecimento de conexões e a construção de significado.
Caso contrário, os estudantes tendem a armazenar informações de forma fragmentada, como em “silos” desconexos. Podem até memorizar e reproduzir respostas, mas essa aprendizagem permanece superficial e pouco duradoura, com impacto significativamente menor em suas vidas e em seu trabalho do que se espera diante das demandas do mundo atual.
Por isso a clareza é fundamental para encontrar um foco que apoie uma aprendizagem duradoura.
Larry Ainsworth, educador e autor importante na área de priorização e foco no ensino de habilidades, expressa a clareza da seguinte maneira:
“Eu acredito que temos um problema de clareza em nossas escolas. Não temos realmente uma clareza sobre o que queremos que nossos estudantes saibam e sejam capazes de fazer com esse conhecimento. Sem clareza nos objetivos de aprendizagem, que orientem com precisão o ensino, o desenho das avaliação e o uso dos resultados como base para os próximos passos, dificilmente conseguiremos alcançar o impacto potencial descrito por John Hattie. Não conseguimos enxergar nem maximizar a aprendizagem dos estudantes porque não temos segurança sobre o ponto de partida. Em outras palavras, falta-nos uma base sólida a partir da qual orientar o ensino.” – Larry Ainsworth, Corwin Teacher Clarity, Youtube video
A definição de habilidades e competências, por si só, não produz clareza na sala de aula

Poderíamos supor que, ao menos no Ensino Básico, já contamos com uma orientação mais bem definida a partir da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Além disso, muitas instituições , inclusive no Ensino Superior, já incorporam a linguagem de competências e habilidades em seus currículos.
Sem dúvida, esse movimento representa um avanço importante. No entanto, a definição de competências e habilidades, por si só, não produz a clareza necessária para orientar o ensino no cotidiano da sala de aula.
Na verdade, a definição de habilidades e competências elevou a complexidade do ensino. Diretrizes que antes se concentravam na transmissão de conteúdos, passaram a exigir o desenvolvimento de habilidades que envolvem maior desafio cognitivo. O que antes podia se apoiar em uma absorção pouco estruturada de informações agora demanda análise, pensamento crítico, avaliação e capacidade criativa.
Antes, não havia clareza sobre o que era essencial ensinar, porque se ensinava tudo, na expectativa de que os estudantes alcançassem os mesmos insights que o professor especialista e estabelecessem, por conta própria, as conexões necessárias para consolidar a aprendizagem.
Hoje, a falta de clareza se reflete muitas vezes em um “copia e cola” das diretrizes curriculares, como a BNCC, sem a necessária assimilação à prática de ensino.
Mas a BNCC não é currículo, e nenhuma outra diretriz pode ser tratada como tal, ou muito menos plano de aula. o Brasil, ainda estamos em estágio inicial na implementação de diretrizes baseadas em habilidades. Em contextos internacionais, no entanto, já se consolidou a compreensão de que é preciso priorizar e “desempacotar” essas diretrizes para que se traduzam, de fato, em resultados de aprendizagem esperados.
Por isso, ainda falta compreensão e formação docente adequada para que uma diretriz curricular baseada em habilidades e competências tenha impacto real nos resultados de aprendizagem. O professor pode saber (talvez) o que é uma competência e uma habilidade, mas não aprendeu realmente como transformar essa compreensão em decisões pedagógicas concretas.
Ensinar com clareza de objetivos é uma habilidade docente que precisa ser desenvolvida

Para ensinar com clareza de objetivos, é preciso determinar o que é essencial ensinar e aprender. Isso exige a definição de um foco: um ângulo ou perspectiva de ensino que faça sentido para o professor e que funcione como eixo organizador da aprendizagem, favorecendo a construção de conexões entre as informações.
Vamos considerar um exemplo simples: o tema “alimentação saudável”. Trata-se de um tópico amplo, que pode abranger desde a absorção de nutrientes nos sistemas digestório e circulatório até a escolha de alimentos para compor um prato equilibrado.
Diante dessa amplitude, o professor precisa se fazer uma pergunta central:
“O que é essencial aprender sobre alimentação saudável neste momento da trajetória dos estudantes?”
Partindo das diretrizes curriculares como referência, imagine que um(a) professor(a) defina a seguinte ideia essencial a ser trabalhada:
IDEIA ESSENCIAL: fazer “escolhas com base em necessidades individuais”.
A partir dessa ideia essencial, o(a) professor(a) precisa explicitar a compreensão duradoura que deseja desenvolver nos seus estudantes: aquilo que eles devem compreender e saber fazer no futuro, mesmo depois que os detalhes forem esquecidos.
COMPREENSÃO DURADOURA: Os estudantes precisam compreender que a escolha de alimentos para compor um prato saudável depende de necessidades individuais como deficiência nutricional, demandas esportivas, objetivos relacionados ao peso, entre outras.
Essa ideia essencial, juntamente com sua compreensão duradoura, deve orientar as escolhas sobre quais competências e habilidades priorizar em determinado momento da trajetória de aprendizagem. A partir dessa priorização, cabe ao professor “desempacotar” as habilidades selecionadas, transformando o que está descrito na diretriz em um objetivo de aprendizagem claro e focado, capaz de orientar todo o planejamento reverso: isto é, um planejamento que começa pela definição precisa do resultado que se espera alcançar.
É esse processo que permite ensinar com profundidade e garante ao professor maior domínio sobre a habilidade que está sendo desenvolvida. Ao mesmo tempo, sustenta a capacidade de comunicar com precisão em sala de aula, oferecendo ao cérebro dos estudantes um organizador prévio que favorece a construção de significado.
Associar as habilidades descritas em uma diretriz curricular a uma compreensão duradoura permite que deixem de ser descrições abstratas e passem a funcionar como referência concreta para o ensino e a avaliação, favorecendo maior precisão na observação da aprendizagem dos estudantes.
O processo de priorização e “desempacotamento” de habilidades é amplamente explorado e difundido no ensino internacional. Os conceitos de ideia essencial e compreensão duradoura apresentados neste artigo, são extraídos do trabalho fundamental sobre planejamento reverso de Grant Wiggins e Jay McThighe no livro “Planejamento para a Compreensão”.
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“CLAREZA DO PROFESSOR: (Re)Considere sua identidade de educador(a) para uma aprendizagem ativa eficaz”
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