Para que serve a aprendizagem se não for para levar algo duradouro para a vida, mesmo depois que todos os detalhes forem esquecidos? Esta é a visão atual do ensino, que promove competências e habilidades para a vida e o trabalho, com a perspectiva de “aprender a aprender”.
É com esta visão que precisamos olhar nosso PLANOS DE AULA, para sair da tentação de ensinar como uma sequência de tópicos e subtópicos. É mais fácil pensar em cada aula como um pequeno tópico e esperar que os estudantes façam as conexões necessárias por si mesmos – ou que absorvam rapidamente as conexões que o(a) professor(a) explica. Mas conexões duradouras se formam apenas com esforço cognitivo do próprio estudante, em atividades de aprendizagem ativa diversas, apresentadas como oportunidades para testar, questionar e experimentar os conteúdos nos seus inúmeros aspectos.
Eu sei que professores são pressionados com um currículo visto como “apertado”, eu sei que sofrem com falta de tempo e pressões administrativas do seu ofício. Mas pequenas estratégias de ensino podem ser inseridas e experimentadas pouco a pouco, justamente para fazer com que o processo de aprendizagem seja mais produtivo. Isso envolve cobrir conteúdos de forma estratégica, com maior profundidade. A ideia é “cobrir menos” conteúdo para ter “mais” resultado, com foco no que é prioritário ou essencial.
Mesmo com todas as pressões, é possível para um(a) professor(a) incluir algumas pequenas transformações como as que vou descrever abaixo e já colher benefícios. Minha preocupação é sempre oferecer opções para que transformações possam ser feitas aos poucos, na medida do possível.
Mas uma instituição não pode esperar que seus professores transformem o ensino de forma mais abrangente sem oferecer formação, apoio e acompanhamento. Da mesma forma que não podemos esperar que os estudantes façam conexões de forma automática, também não podemos esperar que professores façam transformações, persistam e tenham resultados sem o tempo e apoio necessários. Esse é um princípio básico da aprendizagem que serve para todas as idades, em qualquer circunstância. É preciso respeitar o processo de aprendizagem dos professores, para que possamos transformar o processo de aprendizagem dos estudantes e colher resultados significativos.
É importante que a instituição tome a decisão de promover conhecimento, visão e coerência para o desenvolvimento profissional de seu corpo docente. Assim esse processo de transformação pode ser sustentável para todos.
1) Engaje em um OBJETIVO de APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVO

Imagine uma conversa, logo no início de uma unidade de estudos sobre interpretação de texto, em que os estudantes discutem a importância de analisar argumentos em artigos de jornal, para determinar se o autor está sendo parcial ou imparcial, se os fatos estão sendo relatados e utilizados como evidência e não estão sendo confundidos com opinião.
Essa é uma forma de empacotar um objetivo de aprendizagem final claro. E não será suficiente ter essa conversa somente no início: será necessário que cada aulas se alinhe a essa promessa. Para se sentir engajado, o estudante precisa entender para que serve cada pedaço da aprendizagem que leva a um objetivo significativo.
Por isso, é importante que o objetivo de aprendizagem final esteja claro e VISÍVEL para os estudantes durante todo o processo. O objetivo pode estar impresso em um poster na parede da sala de aula, ou pode estar visível em todas as atividades em documentos digitais, ou aparecer na projeção da tela do(a) professor(a). E portanto cada PLANO DE AULA precisa “lembrar” o objetivo final.
Essa estratégia serve para que o(a) professor(a) não se perca nos conteúdos e consiga alinhavar todas as experiências para os estudantes. Essa estratégia também serve para que os estudantes avaliem como estão no processo de aprendizagem e desenvolvam alguma autonomia para perseguir o resultado esperado. Ninguém pode perder de vista o objetivo, com o risco de chegar no final com aprendizagens desconectadas.
A primeira pergunta que precisamos fazer sobre nossos planos de aula é se estes planos estão ALINHADOS a um objetivo de aprendizagem focado, claro e significativo para os estudantes. Se os planos de aula são baseados em tópicos ou se existem vários objetivos, é preciso alinhar tudo isso e tentar escrever um único objetivo que englobe todas as aulas de uma unidade de estudos.
E como alinhar os planos de aula quando não existe um objetivo final bem definido e significativo? Aqui vai minha sugestão se você é professor(a) ou se você representa uma instituição:
Para um(a) professor(a) que está começando a explorar esta estratégia, eu sugiro fazer uma reflexão ao longo de alguns dias, no chuveiro, na hora do café, no final do dia com os pés no chinelo…fazendo anotações. Essa deve ser uma reflexão prazerosa e deve trazer à tona a “compreensão duradoura” que realmente deseja para os estudantes quando eles aprendem sobre determinado tópico em uma unidade de estudos. O que você deseja que os estudantes sejam capazes de fazer com o que aprenderam, na sua vida, no seu trabalho, na sua comunidade, mesmo depois que todos os detalhes forem esquecidos? Eu aposto que você vai chegar a um objetivo útil e significativo para os estudantes.
O próximo passo é tentar justificar cada aula como parte do processo que vai levar a esse objetivo significativo. Se as aulas e atividades estão parecendo muito distantes do objetivo mais “nobre” de uma compreensão duradoura, então é o momento de tentar reavaliar o plano de aula, para que seja mais autêntico e mais alinhado ao objetivo proposto.
E, para quem representa uma instituição e promove a formação de professores, sugiro uma atividade que costuma ser bastante produtiva. Os professores podem ser organizados em pares: cada um explica ao colega por que determinado tópico de estudo é especial e importante, e o que realmente gostaria que os estudantes levassem dessa aprendizagem para a vida. Em seguida, o colega repete o que ouviu e compreendeu. Esse formato simples e espontâneo costuma revelar as maiores aspirações do professor, pois a fala estimula a reflexão, enquanto a escuta ativa do outro ajuda a tornar as ideias mais nítidas. Após a atividade, cada professor pode registrar suas percepções e, a partir delas, definir o objetivo final significativo da sua unidade de estudos.
2) Inclua APRENDIZAGEM ATIVA – VISÍVEL E MENSURÁVEL

Não importa se os estudantes participaram de uma leitura em grupo, de uma rotação por estações, ou fizeram exercícios individuais. O importante é saber o que os estudantes são capazes de FAZER com o que acabaram de aprender. É importante que cada PLANO DE AULA (ou pelo menos ao final de um pequeno grupo de aulas) tenha uma ATIVIDADE que torne a aprendizagem VISÍVEL E MENSURÁVEL. E porque isso é importante?
Se os estudantes fazem uma leitura em grupo e nada é documentado de forma visível, não sabemos o que cada um aprendeu. O mesmo acontece em uma rotação por estações: sem registro, não temos clareza sobre a aprendizagem individual. Já em exercícios individuais, existe documentação — mas será que conseguimos identificar, de forma nítida, qual habilidade específica foi demonstrada? Ou apenas constatamos o número de acertos e erros?
Por isso, é fundamental perguntar: qual atividade pode demonstrar uma pequena habilidade auxiliar que contribui diretamente para o objetivo final? Se o estudante consegue reconhecer que já domina essa habilidade “auxiliar”, ele percebe que está no caminho certo para alcançar o sucesso. Para isso, no entanto, a habilidade precisa ser visível e também mensurável.
No nosso exemplo sobre interpretação de textos jornalísticos, podemos utilizar a Taxonomia de Bloom para determinar qual verbo de ação pode ser aplicado à compreensão do que significam tese e argumentos, por exemplo. Esse é um conhecimento muito básico, mas a capacidade de “explicar” força uma demonstração ativa neste nível de compreensão. Então se os estudantes costumam fazer uma leitura e discussão em grupo sobre estes conceitos, o(a) professor(a) pode incluir esta nova atividade que envolve “explicação”, para tornar a aprendizagem de cada estudante visível.
A atividade pode ser tão simples quanto pedir aos estudantes para explicar oralmente a um colega o que é tese e argumento com base em um ou mais exemplos e depois escrever esta explicação. O ato de falar força a memória e a organização do raciocínio, e a escuta ativa de um colega ajuda a refinar a explicação, que depois é devidamente documentada pelo estudante.
E como o estudante e o(a) professor(a) irão saber se o conceito de tese/argumento foi bem compreendido? Por meio de feedback. A segunda melhor coisa a se fazer depois de incluir uma atividade que torna a aprendizagem visível e mensurável, é criar um par de exemplos para apoiar o feedback. Nesse caso, os exemplos seriam textos onde aparece tese e argumento, com uma explicação de porque uma parte do texto é considerada uma tese e porque uma parte do texto é considerada um argumento. Assim, os estudantes podem fazer uma autoavaliação ou o(a) professor(a) pode facilitar um feedback entre pares. O(a) professor(a) pode até “corrigir” as explicações, mas isso não é necessário quando existem bons exemplos que servem de comparação.
O maior desafio dessa estratégia não é criar uma atividade de aprendizagem visível e mensurável. O maior desafio é criar exemplos, e organizar estes exemplos de forma que estejam disponíveis para as próximas turmas de estudantes. Mas ultrapassada essa resistência inicial, o(a) professor(a) consegue criar um banco de exemplos. E se a instituição participa deste processo, é possível ajudar professores de uma mesma área a criar um banco de exemplos em conjunto.
Esta estratégia é fundamental para o sucesso da aprendizagem, e está descrita em inúmeras pesquisas educacionais e boas práticas como “avaliação para a aprendizagem”, ou processo formativo. A instituição pode apoiar esta prática através de formação e troca entre professores.
3) Promova CONEXÃO ATIVA entre as AULAS

Imagine começar uma aula pedindo aos estudantes que recordem o que aprenderam na aula anterior, sem olhar em nenhum lugar e sem perguntar a ninguém, e expliquem como essa aprendizagem leva ao objetivo final.
Esse tipo de atividade, chamado “recuperação de memória”, é um exercício poderoso de consolidação da aprendizagem, segundo pesquisas em neurociência. Além disso, ajuda os estudantes a atribuir significado a cada aula, reconhecendo-a como parte de um processo estruturado e coerente que os conduz em direção a um objetivo final.
Os estudantes podem depois compartilhar sua memória com um colega ao lado e/ou com toda a classe. Assim o(a) professor(a) consegue identificar falhas de compreensão, tanto do conteúdo quanto do processo, e ao mesmo tempo reforçar e consolidar o entendimento correto.
Esse momento de recuperação de memória é ideal para criar conexões com o novo conteúdo e com as habilidades da aula, pois os estudantes estão com as ideias “frescas” para começar a trabalhar. Uma variação dessa atividade é pedir que registrem suas lembranças em um “diário de aprendizagem”. Não importa tanto o formato. O importante é que a reflexão seja individual, e que possa ser compartilhada de alguma forma em algum momento.
Essa prática ajuda a criar uma conexão significativa entre cada aula e abre espaço para uma verdadeira “negociação de significados” entre estudantes e professor(a): sobre o porquê de cada aprendizagem e o como ela será construída ao longo do processo.
É fundamental que esse exercício de memória e atribuição de significado seja realizado individualmente por cada estudante. Assim, evita-se a situação comum em que o(a) professor(a) lança a pergunta para toda a turma e apenas alguns (geralmente os mesmos) se manifestam.
Com o apoio da instituição, professores podem revisar uma unidade de estudos ou curso de cada vez, para criar mapas de aprendizagem mais claros e intencionais. A documentação destes “mapas” facilita o diálogo entre corpo docente e gestão, além de gerar melhores resultados de aprendizagem.
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