Sou a favor de integrar iniciativas educacionais a partir de ideias que ajudem a orientar caminhos. Acho que estamos precisando disso. A atual ênfase em educação socioemocional e saúde mental nas escolas é uma conscientização fundamental, mas parece que está levando à uma dispersão de esforços: é preciso educar o socioemocional, é preciso educar sobre inteligência artificial, é preciso desenvolver conhecimento pedagógico para ensinar habilidades em vez de transmitir conteúdo, entre outras coisas. Tudo isso também gera uma sensação de sobrecarga mental e confusão sobre qual direção tomar.
O cérebro humano simplesmente não dá conta de uma profusão de iniciativas que parecem apontar para direções desconectadas. A neurociência mostra que precisamos de algo que organize nossas experiências e a nossa memória. Caso contrário, a implementação pode ficar cada vez mais difícil.
Neste artigo vou tomar emprestado o conceito de “autoestima intelectual”, como uma ideia que pode nos ajudar a implementar tanto as melhores práticas de ensino-aprendizagem como a educação socioemocional (e, por que não, a integração de IA na educação). Este conceito foi definido por Antônia Burke, professora, psicanalista e educadora socioemocional:
“Você já parou para pensar em como seu filho se sente em relação ao que aprende? Na maioria das vezes celebramos notas altas, cobramos quando os resultados não vêm e elogiamos conquistas acadêmicas, mas raramente nos perguntamos: como está a confiança deles na própria capacidade de pensar? Esse é o campo da autoestima intelectual. Diferente da autoestima ligada à aparência ou ao comportamento, ela diz respeito ao quanto acreditamos que nosso raciocínio tem valor, que nossas perguntas importam, que conseguimos sustentar uma ideia até o fim.”- Antônia Burke, “Como anda a autoestima intelectual do seu filho?”, Vida Simples, 2025.
Achei muito relevante que “autoestima intelectual” tenha sido colocada como um dos pilares da educação socioemocional, por alguém como a Antônia, que tem muita experiência e conhecimento sobre o tema. Isso me fez pensar que essa mesma “autoestima intelectual” é essencial para produzir uma aprendizagem que consegue integrar o conhecimento à vida e ao trabalho do estudante, de forma duradoura. A “autoestima intelectual” é essencial para que o estudante atribua significado à sua aprendizagem e consiga fazer a ponte com a vida real. O oposto disso é a tradicional “decoreba”: uma aprendizagem de curta duração e pouco impacto.
Conheci o trabalho de Antônia Burke ao ouvir o episódio “Porque a Educação Socioemocional é a Única Saída”, no podcast “Inteligência Orgânica” de Pedro Cortella.
Por isso escolhi três estratégias fundamentais de ensino de alto impacto, que demonstram como o desenvolvimento da “autoestima intelectual” pode e deve ser parte integrante do cotidiano da aprendizagem. O objetivo é integrar, tanto quanto possível, educação socioemocional e conhecimento pedagógico.
O desenvolvimento da “autoestima intelectual” é uma parte da educação socioemocional, mas acredito que é uma peça estruturante, porque desenvolve o pensar. O “pensar” dá significado à aprendizagem porque somente o indivíduo pode fazer isso. Mas nós, educadores, temos uma tarefa importante: ajudar os estudantes nesse processo de aprender a pensar e produzir significado.
Para quê aprender? – Objetivo de aprendizagem com significado

Se quisermos desenvolver autoestima intelectual precisamos oferecer oportunidades para que os estudante exerçam sua capacidade de duvidar, questionar, debater e refletir. É por meio da autoestima intelectual que o estudante atribui significado pessoal ao que aprende e integra novos conhecimentos ao seu repertório prévio e aos seus interesses.
Mas essa apropriação da aprendizagem pelos estudantes não acontece no vácuo. Não podemos esperar que ela aconteça quando o ensino entrega excesso de conteúdo e objetivos difusos. Precisamos criar condições favoráveis: o objetivo de aprendizagem que se pretende alcançar precisa ser focado e claro para os estudantes, além de estar associado a um “para quê” aprender. É assim que o ensino encontra o estudante no meio do caminho, estimulando a capacidade de pensar, estabelecer conexões e atribuir significado ao que aprende.
Vamos imaginar um exemplo no ensino de História. Em vez de ensinar um período histórico de forma cronológica e/ou de tentar ensinar um número enorme de habilidades (da BNCC, por exemplo), o(a) professor(a) “traduz” a principal aprendizagem esperada em um objetivo claro:
E diz aos estudantes logo no início da unidade de estudos sobre a transição democrática no Brasil:
“Vocês devem ser capazes de relacionar a mobilização da sociedade às conquistas da cidadania na Constituição de 1988, para que possam participar de forma crítica e consciente do debate público em nossa sociedade”.
Esse objetivo foca a aprendizagem de uma habilidade ao mesmo tempo que provoca reflexão, análise e debate. É um objetivo sem resposta certa ou errada, que convida os estudantes a negociar o sentido dos eventos históricos. Com o objetivo específico de estabelecer relações em um período histórico, os estudantes absorvem conteúdo com o propósito de desenvolver uma competência no campo da participação cidadã.
Pesquisas educacionais apontam melhores resultados de aprendizagem quando os estudantes se apoiam em objetivos claros e significativos, com potencial para entregar valor à vida e ao trabalho.
Para isso, os professores precisam de oportunidades para traduzir expectativas ou diretrizes curriculares para a linguagem dos estudantes, na forma de objetivos de aprendizagem focados e claros. Os professores também precisam de apoio para criar experiências de aprendizagem que favoreçam o desenvolvimento da autoestima intelectual nos estudantes, em pequenas doses, ao longo de todo o processo de aprender.
O que eu penso sobre isso? – Memória e metacognição para construir significado

Depois de oferecer um objetivo de aprendizagem focado e claro, quais estratégias podemos utilizar para estimular o desenvolvimento da autoestima intelectual dos estudantes e a construção de significado? Eu chamaria a atenção para duas estratégias apoiadas por pesquisas em neurociência, e que podemos incluir em nosso planejamento do ensino: recuperação da memória e metacognição.
Metacognição é a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento. Em outras palavras, é o próprio ato de trabalhar e reorganizar informações, contextos, emoções, pensamentos e memórias. O estudante precisa acessar seu conhecimento prévio, seus interesses, suas crenças, seus objetivos, para dar sentido ao conhecimento que vem de fora através do ensino. E a recuperação de memória é toda atividade que permite ao estudante trazer à tona conhecimentos, experiências e memórias, que inclui não apenas o que é subjetivo mas também o que é ligado à aprendizagens passadas.
Podemos planejar atividades de recuperação de memória com atividades simples como por exemplo:
- Escrita em um diário pessoal, no início da aula, relembrando um ponto importante que foi aprendido anteriormente.
- Troca entre pares, no final da aula, retomando uma ideia importante aprendida.
- Mapa mental incluindo o que o estudante já sabe ou aprendeu sobre determinado assunto.
Esta recuperação de memória pode então ser conectada a novos conteúdos e habilidades, com a ajuda da metacognição. O estudante precisa desenvolver a capacidade de refletir sobre o seu processo de aprendizagem e também a capacidade de se autorregular na direção do objetivo que foi proposto. Algumas atividades de metacognição podem incluir:
- Feedback entre pares.
- “Carta do futuro” escrevendo para si mesmo(a) sobre porque importa aprender algo.
- Reflexão sobre o que funcionou na aprendizagem, o que precisa melhorar, e quais devem ser os próximos passos.
- Rotinas de pensamento (Project Zero, Harvard)
A autoestima intelectual precisa, portanto, ser alimentada de forma contínua em diversas situações: deve fazer parte do processo de aprender, porque aprender envolve pensar de forma autônoma. Assim, o significado vai sendo construído em conexão com aquilo que o estudante aspira, com sua visão de mundo e com o que foi proposto no ensino.
Como podemos aprender juntos? – Aprendizagem colaborativa para negociar significado

Como já dizia Vygotsky, a aprendizagem é social e cultural. Aprendemos na interação com o outro e com a sociedade. Aprendemos porque nos defrontamos com nossas ideias ao encontrar ideias divergentes. Aprendemos porque reorganizamos e expandimos nosso pensamento ao encontrar percepções fora de nós mesmos.
Por isso, acredito que a aprendizagem colaborativa seja essencial para o desenvolvimento da autoestima intelectual. Afinal, o indivíduo precisa saber argumentar e defender suas próprias ideias ou até defender suas dúvidas, para desenvolver autoestima. “Debate e argumentação” é inclusive colocado por Antônia Burke como outro pilar na educação socioemocional.
Na perspectiva pedagógica, inúmeras pesquisas educacionais apontam para a importância da aprendizagem colaborativa. Em particular, temos a conhecida metanálise de John Hattie que destaca a “discussão em classe” como um dos grandes impactos nos resultados de aprendizagem.
A instituição que ensina seus estudantes a pensarem por si mesmos, a compartilhar ideias com colegas e a criar de forma coletiva, está desenvolvendo autoestima intelectual e criando condições para que a aprendizagem tenha significado. Mas isso precisa acontecer de verdade, no cotidiano da sala de aula presencial ou online, e não apenas no discurso.
Existem algumas formas simples de planejar momentos em que esta colaboração acontece como parte do processo individual de aprendizagem:
- Aprendizagem entre pares: o estudante compartilha com um colega o que aprendeu e depois se engaja em escuta ativa..
- Brainstorming: os estudantes escrevem ideias individuais em post-its, que depois são agrupados e reorganizados coletivamente.
- Jigsaw: cada estudante lê uma parte do texto; grupos de “especialistas” são formados para discutir cada trecho; ao final, cada participante retorna ao grupo original para ensinar aos colegas o que aprendeu.
Aprendizagem colaborativa é radicalmente diferente dos antigos “trabalhos em grupo” porque demanda aprendizagem individual no contexto coletivo. Todos devem ter um papel e contribuir. Para que isso aconteça, é preciso planejar o planejar o “processo” de interação e aprendizagem e não apenas o produto que vai ser criado pelo grupo.
Além disso é preciso planejar uma avaliação individual, que define expectativas claras para a aprendizagem do indivíduo. Isso vale tanto para aprendizagem de um curso como para a aprendizagem socioemocional. É possível criar rubricas com critérios qualitativos de participação individual no grupo, por exemplo, para servir como autoavaliação e avaliação entre pares. Tudo isso gera discussão sobre o manejo de si mesmo no coletivo.
O que estamos esperando, então, para dar um papel mais relevante a estratégias de ensino que já conhecemos há tanto tempo?
Por que não aproveitar o próprio cotidiano da aprendizagem para desenvolver educação socioemocional de maneira integrada ao ensino?
Por que implementar educação socioemocional como uma iniciativa inteiramente nova, em vez de integrá-la a boas práticas já estabelecidas?
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