Planejamento não tem sido o forte do ensino. Na verdade somos todos um pouco avessos a planejamento nessa era da pressa e de excesso de informação. Planejar parece uma perda de tempo porque acreditamos que já temos tudo “na cabeça”, e acabamos “plantando a grama quando a bola já está no jogo”.
Planejamento também pode parecer algo muito trabalhoso, ou algo que acaba em um documento “morto” que ninguém vai usar como base para o dia a dia. Me parece que existe uma preocupação maior em planejar “atividades engajadoras” do que em planejar o ensino como um todo de forma estratégica. Essa abordagem está muito relacionada à onda das metodologias ativas, que são excelentes, mas que sozinhas não representam planejamento intencional.
Planejar o ensino envolve mais intencionalidade do que detalhes de atividades “mão na massa”. Planejar o ensino envolve principalmente reflexão, que pode ser feita em qualquer lugar: no chuveiro, nas férias, e na reunião institucional. E porque eu digo isso? Porque a essência de um planejamento está em identificar um foco claro, que irá resultar na aprendizagem que realmente queremos para nosso estudantes. Depois disso tudo fica mais fácil e o alinhamento acontece.
Por isso eu digo que fazer um planejamento do ensino não deve ser visto como algo complicado e trabalhoso. Deve ser visto como uma clareza de intenção que irá simplificar decisões sobre planos de aula, sobre avaliações e maior clareza no uso de “metodologias ativas” e/ou integração de tecnologia.
Porém é preciso conhecimento sobre como fazer um planejamento com uma intencionalidade “produtiva”. Neste artigo, eu mostro um exemplo do que acontece quando não existe alinhamento entre o que se “planeja”, o que se ensina e o que os estudantes de fato aprendem. E depois eu mostro o mesmo exemplo com intencionalidade no planejamento, alinhando ensino e aprendizagem esperada.
Quando o alinhamento falha, o ensino se perde
Vejamos um exemplo que trata da aprendizagem da escrita dissertativo-argumentativa, que é uma competência essencial não apenas para enfrentar exames, mas também para a vida. Acredito que todos nós podemos nos relacionar com este exemplo de aprendizagem.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) descreve diversas habilidades necessárias para desenvolver a escrita argumentativa. Como acontece com toda diretriz curricular, a lista de conteúdos, habilidades e objetivos pode facilmente gerar uma sensação de overload, como se fosse informação demais para organizar e dar conta. E daí fica a pergunta: como o(a) professor(a) utiliza esse excesso de informações presentes nas diretrizes para guiar o seu ensino e gerar a aprendizagem esperada?
Professores de Língua Portuguesa são certamente capacitados e conhecem inúmeras formas de desenvolver cada elemento deste tipo de escrita. Estes professores sempre ensinaram e continuam ensinando. Mas aí está justamente a “pegadinha” da situação. A expectativa sobre o que os estudantes precisam aprender se transformou.
Nos dias de hoje, uma escrita argumentativa envolve mais do que a mecânica do texto. Ela passa pela riqueza de um repertório próprio de conhecimento para analisar um tema com profundidade e comunicar ideias de forma efetiva (vide redação no Enem). O mesmo acontece para todas as áreas do conhecimento: Hove transformação de expectativas.
O ensino tradicional sempre focou mais na estrutura e na gramática do que na capacidade de reflexão, análise e comunicação dos estudantes. Isso não significa que essas habilidades não sejam ensinadas, mas sim que raramente recebem a prioridade necessária para gerar a aprendizagem que realmente se espera.
No infográfico a seguir, vemos um exemplo em que esse desalinhamento fica evidente. O “planejamento” aparece como um copia e cola das habilidades da BNCC: habilidades que, por não serem realmente compreendidas ou trabalhadas, acabam ficando “mal digeridas”.
Essa abordagem, que é mais comum do que parece, faz com que nuances importantes se percam ou se diluam como intenção no momento de planejar as aulas. Como resultado, o ensino que acontece no dia a dia da sala de aula tende a repetir práticas tradicionais enquanto tenta incorporar inúmeras habilidades complexas que os estudantes mal têm tempo de assimilar e praticar em profundidade.

Vamos sempre lembrar o seguinte: não adianta planejar atividades engajadoras seguindo metodologias ativas se os estudantes não tiverem a oportunidade de praticar cada habilidade de forma estruturada e conectada de maneira significativa. As metodologias ativas, por si só, não garantem alinhamento. O que realmente produz alinhamento e gera o resultado esperado é a clareza de intenção no planejamento e no ensino, para produzir um resultado que é bem compreendido.
Por isso, a consequência desse desalinhamento é uma aprendizagem superficial. Muitos estudantes produzem textos com argumentos pouco desenvolvidos, repertório limitado, pouca voz autoral e detalhamento insuficiente, o que compromete a fluidez e a coesão. Assim, a expectativa de aprendizagem raramente se concretiza para a maioria.
Quando o alinhamento acontece, a clareza de intenção ganha forma
Agora vamos analisar o mesmo exemplo sobre escrita dissertativo-argumentativa, só que em uma situação onde o alinhamento entre planejamento, ensino e aprendizagem acontece.

O que observamos neste exemplo é um objetivo de aprendizagem claro, focado e diretamente alinhado às expectativas centrais das habilidades da BNCC. Pesquisas educacionais e melhores práticas já apontam há muito indicam que o objetivo de aprendizagem precisa ser claro e também comunicado aos estudantes logo no início, acompanhado de exemplos do que significa ter sucesso.
Um objetivo claro revela a intencionalidade pedagógica que orienta o planejamento das aulas: neste caso, a ênfase está na formulação e articulação de um ponto de vista como fundamento para a produção do texto dissertativo argumentativo.
Veja que a intenção se inverte e propõe aos estudantes uma trajetória de aprendizagem em que a escrita formal se submete ao desenvolvimento de ideias. Essa inversão é exatamente o que cria alinhamento e conduz ao resultado de aprendizagem que se espera.
Os planos de aula são construídos como degraus de uma escada de desafios progressivos, organizados de modo lógico para apoiar os estudantes rumo ao objetivo final. A escrita é praticada em partes, associada a cada um dos elementos de um argumento bem elaborado. E, antes de tudo isso, os estudantes têm a oportunidade de explorar e exercitar diferentes pontos de vista sobre um tema, mesmo antes de produzir uma escrita formal.
A intenção colocada no objetivo de aprendizagem se transforma em ensino que de fato promove a aprendizagem esperada, porque oferece as oportunidades necessárias para desenvolver essa competência complexa. O resultado é uma aprendizagem mais duradoura, ancorada na habilidade de elaborar um ponto de vista consistente. Não adianta escrever com gramática correta e alguma estrutura se o conteúdo permanece superficial porque as ideias não foram bem trabalhadas. Quando as ideias são bem construídas, o texto flui melhor, ganha estrutura e coerência, e a gramática encontra seu lugar com muito mais naturalidade.
E assim o alinhamento simplifica…
A intenção clara do planejamento traz mais confiança sobre o que realmente precisa ser ensinado e, por isso, simplifica a construção dos planos de aula. Com clareza, deixamos de tentar inúmeras estratégias que acabam amontoando habilidades que os estudantes não conseguem assimilar com profundidade. Simplifica porque nos tornamos mais econômicos no planejamento: as aulas ficam mais focadas, mais intencionais e, consequentemente, mais eficazes.
Aulas alinhadas a uma intenção clara também tornam mais nítida a fala do professor e suas intervenções ao longo da aprendizagem. Os estudantes compreendem melhor o que se espera deles e cada etapa do processo passa a ter mais significado. O ensino se torna mais produtivo e menos “desesperado”, sem aquela sensação de precisar ensinar tudo o tempo todo na esperança de que, em algum momento, os estudantes assimilem.
O ensino tradicional sempre teve essa tendência de apresentar tudo ao mesmo tempo ou rapidamente, e esperar que o aprendizado aconteça quase que por “osmose”. Mas hoje sabemos, pelas evidências da neurociência, que a aprendizagem precisa ser construída gradualmente e assimilada com profundidade em cada passo para gerar resultados eficazes, duradouros e realmente significativos para os estudantes.
O ensino de escrita é um bom exemplo dessa tendência de querer “abraçar o mundo”: muitas vezes pedimos que os estudantes repitam a produção de um texto completo, quando o mais eficaz seria trabalhar partes do texto, praticando uma habilidade de cada vez e construindo conexões de maneira progressiva.
Quando o ensino é intencionalmente planejado para promover um resultado de aprendizagem claro, esse resultado acontece, e tudo se alinha. No nosso exemplo, não faz sentido esperar que os estudantes produzam textos com ponto de vista bem elaborado se eles não forem ensinados a construir esse ponto de vista passo a passo, com tempo real para praticar.
Vamos simplificar o planejamento e o ensino com mais foco e maior controle sobre a aprendizagem, para produzir a aprendizagem que as novas expectativas realmente exigem. Complicado é tentar atirar para todos os lados e se frustar com o resultado.
Para aprender mais sobre alinhamento entre planejamento, ensino e aprendizagem…
Se você quiser começar pelo básico, eu convido a conferir o meu curso online que ensina a priorizar conteúdo em torno de uma ideia que é essencial aprender: “Como Escolher Conteúdo para Engajar o Cérebro do Estudante em Aprendizagem Duradoura”
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Para instituições, eu recomendo a PALESTRA Dialogada sobre “Planejamento Estratégico de Aulas com a Taxonomia de Bloom” .



