Quando pesamos em planejar aulas mais intencionais, o que vem primeiro na cabeça? As experiências de aprendizagem que queremos proporcionar? A experiência e/ou necessidades dos estudantes? O conteúdo? Boas métricas de aprendizagem?
Tudo isso é importante e tem o seu lugar. Mas, para alcançar uma verdadeira intencionalidade no planejamento, é preciso começar pela compreensão duradoura que queremos promover nos estudantes. E afinal, o que é uma compreensão duradoura?
COMPREENSÃO DURADOURA: “O que desejamos que os estudantes compreendam e utilizem muitos anos no futuro, mesmo depois de terem esquecido os detalhes?” – “Planejamento para a Compreensão” de Wiggings e McTighe
É essa visão que deve orientar o planejamento e o ensino, na direção da compreensão duradoura que desejamos alcançar. Ou seja, um resultado de aprendizagem que precisa ser formulado e tornado explícito pelo próprio educador.
Neste artigo, vou apresentar três exemplos de temas para mostrar como a forma de definir nossa intenção pode transformar completamente os planos de aula que elaboramos.
Primeiro, veremos como esses temas costumam ser tratados numa perspectiva tradicional de ensino, ainda que pareçam incluir experiências de aprendizagem ativas. Depois, veremos como tudo muda quando os mesmos temas são planejados a partir de uma compreensão duradoura, e o impacto que essa perspectiva pode gerar nas escolhas de ensino.
Quando o OBJETIVO é VAGO, os PLANOS de AULA deixam de oferecer uma direção clara na mente dos estudantes

Essa imagem representa, literalmente, o que pode acontecer na cabeça dos estudantes (jovens ou adultos), quando o objetivo de aprendizagem não é apresentado de maneira clara e não é percebido como significativo para a sua vida futura. Nessa ilustração de um experimento de ciências, os estudantes podem estar apenas pensando: “Que legal essas cores!”.
Na realidade, o objetivo do experimento era verificar o pH de diferentes soluções (básico, alcalino, ácido). Sem uma compreensão explícita do porquê e para quê aprender sobre pH, o que tende a acontecer é uma decoreba para a avaliação, sem conexão com o significado real do conceito e sua utilidade futura.
Os estudantes podem até “parecer engajados” em uma atividade de “metodologia ativa” sem estarem engajados com algum propósito cognitivo e/ou afetivo. Essa falta de conexão e significado explica grande parte do “desengajamento” da aprendizagem. O corpo está presente mas a mente está em outro lugar, ou no lugar errado.
A forma tradicional de abordar os diferentes temas no planejamento do ensino costuma gerar este tipo de “desengajamento” da aprendizagem. Vejamos alguns exemplos:
EXEMPLO 1: LITERATURA
- Se o OBJETIVO é: Estudantes precisam compreender um texto de literatura folclórica
- Os PLANOS de AULA tendem a ser sobre:
- O que é literatura folclórica
- Interpretação de texto de literatura folclórica
EXEMPLO 2: INTERPRETAÇÃO DE TEXTO
- Se o OBJETIVO é: Estudantes precisam compreender a relação entre tese e argumento
- Os PLANOS de AULA tendem a ser sobre:
- O que é tese
- O que é o argumento de uma tese
- Análise de texto com tese e argumento
EXEMPLO 3: NUTRIÇÃO
- Se o OBJETIVO é: Estudantes precisam compreender o que é uma dieta saudável.
- Os PLANOS de AULA tendem a ser sobre:
- Alimentos saudáveis
- Pirâmide alimentar
- Como montar um prato saudável
Nestes exemplos os planos de aula seguem uma lista de tópicos, basicamente sem uma visão de “para quê” aprender aquilo. É claro que irá existir aprendizagem, mas será provavelmente pouco duradoura e com impacto limitado na vida futura do estudante. Ou pelo menos, com muito menos impacto do que seria desejável em um mundo cada vez mais complexo, que exige transformações e decisões mais incisivas.
Vejamos então o que pode acontecer quando pensamos as aulas a partir da clareza sobre a compreensão duradoura que pretendemos desenvolver nos estudantes.
Quando o OBJETIVO é baseado em uma COMPREENSÃO DURADOURA, os PLANOS de AULA são mais intencionais e interessantes

Vamos imaginar que nesse exemplo do experimento de ciências os estudantes estejam mesmo com o objetivo de aprendizagem na cabeça: o pH de uma solução. Será que eles teriam essa surpresa e engajamento no seu rosto?: “Olha que incríveis as cores do pH”! Acho que não.
Então o que pode fazer toda a diferença no momento de planejar as aulas, para que os estudantes tenham o objetivo de aprendizagem desejado no centro do seu engajamento afetivo e cognitivo? O que faz toda a diferença é pensarmos sobre a compreensão “duradoura” que desejamos desenvolver nos estudantes. E para isso a compreensão precisa ser vista como algo significativo pelos estudantes. Nós educadores temos esta chave e precisamos saber utilizá-la.

Em nosso exemplo do laboratório de ciências, o que pode tornar a aprendizagem sobre o “pH de soluções” algo que perdura no tempo e que tem maior impacto nos estudantes? O que pode ser uma compreensão realmente duradoura?
A compreensão duradoura deve apontar para o “para quê” de um conteúdo ou habilidade. Então “para quê” aprender sobre o “pH de soluções”? Não adianta apenas mencionar algumas aplicações deste conhecimento. É preciso planejar aulas para que os estudantes vivenciem e explorem o “para quê” de alguma forma.
Uma aplicação prática do pH mais próxima da vida cotidiana é o cultivo de plantas. Existem medidores de humidade e pH que se compra em qualquer lugar para manter nossos vasos de plantas com boa saúde e bonitos. Eu mesma tenho um medidor desses.
Então uma compreensão duradoura poderia ser:
“Os estudantes precisam compreender que o pH influencia a saúde de todos os seres vivos, inclusive as plantas que temos em casa, e que o pH afeta a disponibilidade de nutrientes para as plantas”.
Dentro dessa perspectiva mais clara e significativa, um experimento no laboratório de ciências se torna uma introdução para a medição de pH nos vasos de plantas e a observação da saúde destas plantas. Deixamos de planejar apenas aulas sobre pH e experiências com pH, para incluirmos medição e observação das plantas da nossa casa, por exemplo. Tudo isso alinhado dentro da cabeça dos estudantes desde o início.
Veja que não basta propor uma atividade engajadora, como medir o pH dos vasos de casa. É preciso garantir a “compreensão duradoura” com conexões significativas entre cada aula e atividade. Para isso, pode ser necessário acrescentar ETAPAS DE CONEXÃO ao longo da sequência de aulas: por exemplo, incluir um experimento que mostre a mudança de cor em flores conforme o pH do solo. Assim, o estudante percebe a relação entre a reação química “colorida” observada no laboratório e o que acontece nos vasos de plantas, compreendendo que o pH do solo influencia diretamente a absorção de nutrientes e a saúde das plantas.
Veja a seguir os temas que exploramos anteriormente, agora sob uma nova perspectiva: planejar e ensinar para a compreensão duradoura. Você verá como as aulas mudam completamente: o que antes era mera cobertura de conteúdo se transforma em aprendizagem com propósito, em cada etapa do processo, porque a abordagem e o foco mudam.
EXEMPLO 1: LITERATURA
- Se o OBJETIVO é: Estudantes precisam compreender que textos de literatura folclórica capturam padrões universais e aspectos recorrentes da condição humana
- Os PLANOS de AULA se tornam sobre:
- Diferentes tipos de literatura folclórica
- A moral de um texto de literatura folclórica
- Comparação da moral em diferentes textos de literatura folclórica
EXEMPLO 2: INTERPRETAÇÃO DE TEXTO
- Se o OBJETIVO é: Estudantes precisam compreender que existe uma grande diferença entre fato, opinião e argumentação sobre um fato na leitura de textos em diferentes mídias, a fim de tomar decisões embasadas e evitar fake news
- Os PLANOS de AULA se tornam sobre:
- Verificação da veracidade dos fatos relatados
- Fatos como evidências para apoiar um argumento
- Opinião e análise imparcial no jornalismo
EXEMPLO 3: NUTRIÇÃO
- Se o OBJETIVO é: Estudantes precisam compreender que necessidades alimentares variam para cada indivíduo dependendo da idade, nível de atividade, peso e saúde em geral.
- Os PLANOS de AULA se tornam sobre:
- Efeito dos nutrientes na saúde
- Nutrientes em alimentos saudáveis
- Necessidades alimentares individuais
- Como montar um prato saudável para necessidades diferentes
Se quiser dar passos na direção de uma compreensão duradoura…
Para professores e formadores:
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Para instituições:
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